Quem é a dona da própria história?

A melhor fofoca literária de todos os tempos

Qual é a responsabilidade social de uma pessoa escritora? Existe isso?

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Antes de tudo, leiam esse artigo do New York Times.

Essa fofoca literária, não satisfeita em ser a melhor de todos os tempos, ainda foi muito bem contada por Robert Kolker. É um novelo longo, mas bem desenrolado. A cada dois parágrafos, tem um plot twist, nunca sabemos realmente em que pé estamos.

Who is the bad art friend?, de Robert Kolker

Não vou resumir. Vão lá ler. Eu espero. Juro, prometo, vale a pena.

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Então, vamos lá.

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Algumas das melhores histórias que já ouvi, e que poderia incluir em minha ficção, são histórias que soube em confidência e que seria impossível disfarçar ao ponto de as pessoas envolvidas não saberem que era a história delas, e, fazer isso causaria dor e sofrimento em pessoas que ou eu gosto ou confiaram em mim.

Então, certamente, se eu fosse mais canalha (como já fui), ou ligasse menos pros outros (como já não liguei), ou escrevesse em uma língua que sei não iriam ler, etc, certamente eu teria escrito muitas coisas que não escrevi.

(Tenho até uma regra pessoal de nunca criticar autores vivos, que explico aqui. Essa semana, escrevi uma resenha do novo romance do Mia Couto pra Folha de S. Paulo e uma das minhas questões foi saber que ele, se quisesse, poderia ler. Quando escrevi essa resenha de Entre o mundo e eu, do Ta-Nehisi Coates, eu sabia que as chances dele ler eram zero.)

Na minha vida, sinto que quanto menos canalha sou (ou, em outras palavras, quanto mais estudo e pratico o darma, quanto mais me aproximo de ser a pessoa que finjo ser no Atenção.), pior fica a minha ficção.

Dizem que toda grande artista tem um quê de canalha.

Meu maior medo é ser verdade.

Na foto, a escritora Antonella Yllana lendo o meu Atenção. Clique aqui e conheça o trabalho dela.

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Existem duas esferas, a legal e a moral.

Sou contra qualquer restrição legal contra pessoas contando as histórias de vida de outras pessoas, como no caso da lei das biografias. Todas as pessoas devem dispor desse direito.

Dito isso, nem tudo que é legal é certo ou justo, então, mesmo podendo contar certas histórias, eu, pessoalmente, prefiro não.

(O Paulo César de Araujo é uma pessoa muito, muito querida, que escreveu uma biografia amorosa de seu ídolo e pagou um preço caro por isso. Nesse livro, ele conta a história toda e eu recomendo. Confesso que cago pra vida do Roberto Carlos, mas me interessa muito a vida do Paulo César tentando escrever sobre o Roberto Carlos.)

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Um detalhe maravilhoso revelado pela escritora Celeste Ng (a única dessa história toda que eu já tinha ouvido falar) é que foi a própria Dorland que levou a história para o NYT, e para vários outros jornais, pedindo para que cobrissem:

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Em 2017, o conto “Cat Person”, publicado na New Yorker e, no Brasil, pela Companhia das Letras, foi talvez a primeira obra de ficção a realmente viralizar.

Uma moça teve a sensação que o conto parecia tirado de sua própria vida.

Então, ela fez exatamente o que uma pessoa sensata e razoável faria nessa situação: rigorosamente nada.

Há alguns meses, quatro anos depois, ela entrou em contato com a autora, confirmou que sim, a história era parcialmente baseada nela, e escreveu esse ensaio sobre a experiência.

Comentou aqui a minha esposa: nada poderia ser um contraponto melhor ao narcisismo de Dorland.

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Talvez seja o grande dilema da vida. (Certamente, da minha.)

Por um lado, devemos tentar viver sem causar sofrimento e dor às outras pessoas. (Esse é o caminho do darma.)

Por outro, se eu ser gay causa sofrimento e dor ao meu pai… devo sufocar minha própria sexualidade? Se minha mãe só vai ser feliz se eu fizer medicina… não devo cursar História?

Onde está o limite entre dispor livremente do meu corpo e da minha vida, e causar dano e sofrimento à outra pessoa?

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Uma outra discussão interessante sobre ficção é a velha pergunta:

"Mas será que isso realmente aconteceu?"

Minha resposta: mesmo se eu tiver inventado, tudo realmente aconteceu.

Está prestes a sair um livro de 450 páginas de histórias minhas. (De novo, desculpas pelo atraso, mas o lado bom é que ainda dá tempo de comprar.) Tudo que está lá, cada história, realmente aconteceu. Algumas aconteceram com pessoas que conheci. Outras, com pessoas que não conheço, e ouvi de pessoas que conheço. Outras, inventei mas certamente já aconteceram com pessoas que nem conheço — pois, de novo, tudo que não é impossível de acontecer já aconteceu.

Esse é o material bruto da ficção. A não ser que eu invente algo que é patentemente impossível (tipo, acordar e descobrir que sou um inseto) tudo que escrevo necessariamente aconteceu com alguém, em algum momento, em algum lugar.

Mas, na minha vida, o que acontece é o seguinte.

Digamos que eu uso, em um conto, a história que acontecem com uma pessoa conhecida. Para ela não perceber, eu disfarço e distorço os fatos até ficarem irreconhecíveis: mantenho só o cerne daquilo que quero mostrar e mudo todos os detalhes acessórios.

Consigo fazer isso tão bem (não é tão difícil assim desviar a atenção da leitora: escrever é literalmente manipular essa atenção) que nunca aconteceu de alguém vir reclamar comigo porque reconheceu uma história dela própria em algum dos meus textos.

Mas acontece algo talvez pior — porque imprevisível e fora do meu controle: as mudanças que fiz para disfarçar a história que realmente aconteceu com meu amigo Pedro fazem com que o enredo do meu conto se pareça com algo que realmente aconteceu com minha amiga Clarice — que muitas vezes eu nem sabia! — e, assim, todo o mal-estar que evitei com um acontece com outra.

Aí, se repete um diálogo que é mais ou menos assim:

“Alex, que história é essa de dizer que eu trato mal minha empregada? Saiba você que nunca gritei com a minha empregada na vida!”

“Fulana, onde foi que eu disse isso sobre você?”

“Bem nesse texto aqui, onde você fala de uma amiga sua que trata mal e grita com a empregada! Uma calúnia! Nunca fiz isso!”

“Fulana, você trata mal e grita com a sua empregada?”

“Não, Alex! Claro que não! Você sabe que não! Um absurdo você falar isso de mim!”

“Então, naturalmente, a minha amiga sem-nome que trata mal e grita com a empregada… não é você!

A carapuça é uma das forças mais poderosas do universo. Quanto mais lido o texto, mais pessoas vão achar que foi com elas.

Então, tentar contar histórias de forma ética requer um equilíbrio difícil.

No meu caso, como ordenado zen, tento ao máximo não causar dano nem sofrimento.

Mas, como artista, sei que pessoas ególatras e autocentradas, que não têm nada a ver com a história, vão sofrer por algo que não lhes diz respeito.

O fato desse sofrimento ser uma escolha, e uma escolha que é fruto do apego narcísico ao Eu, me traz uma certa tranquilidade.

Eu faço a minha parte, você também precisa fazer a sua.

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Como escritor independente, que ganha a vida chamando atenção para seus textos, meu veredito é que ambas saíram ganhando, a Larson bem mais que a Dorland, pois estão sendo discutidas e comentadas no mundo todo — inclusive aqui nessa newsletter em português.

"Reconhecimento de marca" é tudo, e a marca de uma artista é seu nome. Daqui a cinco anos, vai ter gente que esqueceu essa treta, vai esbarrar num livro delas na livraria, vai lembrar vagamente do nome, e talvez compre o livro, ao invés do livro de outra pessoa que nunca ouviu falar e que nunca se meteu em treta nenhuma.

Por isso, aliás, digo e peço: é importantíssimo vocês falarem nas redes sociais sobre as pessoas artistas que curtem, qualquer que seja a arte.

Um simples tuíte "Li o livro do Alex Castro", sem falar mais nada, nem elogiar, já me ajuda horrores, pois estabelece meu nome como alguém que escreve livros, etc etc.

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Aliás:

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Aliás, me segue no Twitter, vai?

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Grande Sertão: Veredas

Nossa leitura desse mês do curso A Grande Conversa Brasileira é a obra-prima de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.

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Beijos rosianos,

do Alex Castro