Lobo Antunes, o escritor que deu tudo de si e exigiu tudo de nós
Um obituário que tenta fazer justiça a um dos maiores artistas que tivemos
Morreu António Lobo Antunes, um dos maiores escritores que a língua portuguesa já teve e, até ontem, talvez o maior autor vivo do mundo em qualquer língua. Faz alguns anos, tive a honra de ser chamado pela Folha para escrever seu obituário antecipado que, infelizmente, saiu hoje.
Para ler o meu obituário para a Folha, clique aqui. (Só para assinantes, sorry.)
Escrevi uma versão mais longa e mais desenvolvida que está em minha área só para mecenas. (Sorry de novo, mas, se você gosta dos meus textos, por favor, considere se tornar mecenas.)
Abaixo, algumas considerações esparsas que não couberam no obituário da Folha. Mas vá lá ler primeiro.
Lobo Antunes, em 1991, aos 49 anos. Sim, tenho essa mania: gosto de fotos de escritores de quando estão no auge dos seus poderes, não de quando estão velhos e cansados. Esse homem aí da foto tinha acabado de escrever As naus e ainda tinha dentro dele Manual dos inquisidores!
O inefável da guerra
Ele se formou em medicina, como o pai, e serviu como médico de campanha em Angola entre 1971 e 1973. A Guerra de Independência é a experiência definidora da sua vida: apesar de nunca abordar o combate em si − “não me interessa escrever romances de guerra por respeito aos mortos” − a guerra, suas consequências, seu impacto, seus horrores, estão em quase todas as suas obras.
Ele não criou protagonistas memoráveis porque seu tema principal e recorrente é sempre maior do que qualquer pessoa: um trauma repetido que atravessa séculos e nações, biografias e bibliografias.
Literatura abstrata
Em geral, seus romances não têm nem um enredo bem definido (ou seja, uma sucessão de acontecimentos formando uma narrativa) nem personagens marcantes e inesquecíveis: de fato, é difícil lembrar de qualquer personagem individual. Como diz o autor:
“As pessoas gostam [das crónicas] porque são como piscinas para crianças. É impossível afogar-se. Os livros, por sua vez, são feitos para que se afoguem.”
No começo do século XX, as vanguardas modernistas começaram a se perguntar: qual seria o equivalente literário da arte abstrata? Existe, pode existir, literatura abstrata? Um século e muitas obras ilegíveis depois − passando pela rara obra prima ocasional, como Água viva, de Clarice Lispector – culminam na obra de Lobo Antunes, uma sequência de 32 romances, quase sem enredo e quase sem personagens, mas belíssimos, impactantes, inesquecíveis. O mais perto que a literatura pode chegar de uma perfeita abstração.
Como explica ele:
“Não se pode chamar de romance a estas coisas que escrevo. Não há uma história, não há um fio, não há nada. ... A intriga não me interessa.”
E completa: eu queria que os leitores “vivessem o livro.”
Como ler um romance de Lobo Antunes?
Em primeiro lugar, abdicando da necessidade cartesiana de entender o que está acontecendo.
Nenhum de seus romances é breve justamente porque o curto-circuito que o autor está tentando causar em nossos cérebros precisa ser lentamente construído ao longo do tempo. Quem é essa pessoa? De quem é essa voz? Qual é a relação entre esses personagens? Nada disso faz diferença. O importante é continuar o mergulho, continuar nadando entre essas cenas aparentemente desconexas.
O autor nos fornece as peças, mas quem monta o quebra-cabeças somos nós, em nossas próprias mentes – mas só se tivermos segurado em sua mão e nos deixado arrebatar pela experiência da leitura.
Os romances de Lobo Antunes são longos pois exigem que a leitora mergulhe neles como um monge zen estudando um koan: seu tema é sempre aquilo que não pode ser nem comunicado nem apreendido pela mente racional.
Sua última obra
Não seria justo receber seu 32º e último romance, O tamanho do mundo, publicado em Portugal em 2022 e ainda inédito no Brasil, como “mais do mesmo”, mas a verdade é que todo grande gênio artístico sempre acostuma mal o seu público. (Tutaméia, de Guimarães Rosa, não é ruim, mas qualquer coisa seria anticlímax depois de Grande Sertão: Veredas.)
Sabendo agora que O tamanho do mundo foi seu último romance lançado em vida, já pode-se pensar nele com mais generosidade. Apesar de não estar entre suas melhores obras –porque suas melhores obras são completamente fora de escala em termos de qualidade − é digno de se ombrear, sem vergonha e sem demérito, entre todas as outras obras de sua carreira literária.
Por onde começar? Qual é a obra-prima?
Por mais que uma estudiosa goste de Sagarana ou de Helena, não ousaria dizer que são as obras-primas dos autores de Grande Sertão: Veredas e Dom Casmurro.
Mas, ao contrário de outros grandes escritores lusófonos como Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Machado de Assis, ainda não existe um consenso sobre as obras-primas de Lobo Antunes.
Se devemos começar a ler um autor por suas melhores obras (faz sentido uma leitora dizer que não gosta de Guimarães Rosa depois de ter lido só Tutaméia?), por onde entrar na obra de Lobo Antunes?
Três ciclos
Pode-se, em larga medida, separar os romances de Lobo Antunes em três ciclos: autobiográfico, português e intimista.
Ciclo autobiográfico
Seus primeiros três romances – esse “tríptico de arranque” − fizeram um sucesso enorme, imediato e surpreendente. Nada na obra de Lobo Antunes faria qualquer pessoa antecipar que se tornariam best-sellers.
Memória de Elefante e Os cus de Judas, ambos de 1979, e Conhecimento do inferno, de 1980, são certamente seus romances mais acessíveis e podem servir de porta de entrada para sua obra. Mas que a leitora não se engane: apesar de muito experimentais, não são nada perto do que o autor ainda vai ousar.
Muitas vezes, quando algum crítico se arrisca a nomear a obra-prima de Lobo Antunes, quase sempre é um dos dois primeiros, certamente pelo sucesso inicial que fizeram. O problema dessa escolha é que, apesar de ótimos, eles são apenas a ponta de um vasto e sensacional iceberg literário: não fornecem uma dimensão real dos poderes literários de Lobo Antunes.
Ciclo português
Um segundo ciclo incluiria obras que, de alguma maneira, dialogam diretamente com fatos, dramas, dilemas da História Portuguesa, mas dessa vez já sem nenhum alter-ego do autor. Nesse ciclo, temos algumas de suas obras mais celebradas.
Os romances desse ciclo são, ao mesmo tempo, mais experimentais que os do primeiro, e também menos abstratos que os do terceiro: os fatos históricos em si acabam fornecendo a eles uma estrutura que quase se aproxima de um enredo formal, funcionando como uma rede de segurança para o salto de fé que a leitura exige.
Falo mais sobre as obras desse ciclo no obituário da Folha.
Ciclo intimista
Não há como negar uma progressiva complexificação da obra de Lobo Antunes nos últimos vinte anos, uma desagregação semântica cada vez maior somada a um apagamento da própria ideia de narratividade, e que culminam nos romances de sua última fase. Paradoxalmente, ele sustenta que é finalmente nessas obras, já livres de qualquer fato de sua vida pessoal, que ele aparece mais desnudo perante suas leitoras.
Destaque para Que farei quando tudo arde?, de 2001, um romance travesti escrito também muito antes da popularização do tema.
Uma obra antipolarização
Hoje banal, a pergunta, “como separar o autor da obra?” seria impensável algumas décadas atrás. Cada vez mais editoras já têm “leitores sensíveis” profissionais para garantir que seus livros não ofendam ninguém.
Pois nesse mundo de literatura cada vez mais ideológica e polarizada, Lobo Antunes nos oferece um raro descanso. Uma das características mais marcantes de sua literatura fragmentária é a absoluta impossibilidade de reduzi-la a qualquer ideologia. Seus romances formam painéis polifônicos que se recusam a serem contidos e não permitem nenhuma leitura simplista, onde o contraditório está sempre na voz seguinte, nenhuma leitura é imposta como a mais correta e nunca é possível saber de que lado está nem o autor nem a narrativa. Sua obra nunca toma uma posição, porque toma todas as posições.
O próprio autor afirma não existirem “sentidos exclusivos nem conclusões definitivas” em suas obras, exigindo assim que a leitora adicione sua voz às muitas vozes do romance. Mais uma vez, a estrutura do romance quem cria somos nós.
Demência e literatura
Em 1995, o artista plástico norte-americano William Utermohlen foi diagnosticado com Alzheimer. A partir daí, começou a pintar uma série de autorretratos que, em sua crescente desagregação, são verdadeiros documentos do efeito da doença no cérebro humano. Ele perdeu a capacidade de desenhar em 2001 e, finalmente, faleceu em 2007.
Lobo Antunes, em entrevista ao Diário de Notícias em 2011, afirmou: “O meu receio é começar a perder faculdades sem ter crítica em relação a isso. Mas ainda sinto força e, se Deus quiser, gostava de morrer com uma caneta na mão.”
O autor tinha acostumado seu público a um novo romance sempre em outubro. Mas não veio nenhum em 2023, nem em 2024, quando surgiu a notícia, quase uma fofoca, nunca confirmada pela família: Lobo Antunes estaria incapaz de escrever por estar sofrendo de demência desde 2021, agravada pelo isolamento durante a pandemia.
Utermohlmen era um virtual desconhecido e foi catapultado à fama por suas tristes circunstâncias. Já Lobo Antunes considerado por muitos como um dos maiores autores vivos de qualquer língua, sofreu, ao final de sua vida, como Claude Monet, de uma doença que ironicamente trazia ecos do projeto estético ao qual dedicou a vida. Monet desenvolveu um estilo marcado por pinceladas difusas e sem linhas definidas que se confundiu e intensificou ao fim da vida com o seu diagnóstico de catarata.
Não há dúvida que o projeto estético de Lobo Antunes sempre foi marcado por elementos como fragmentação e polifonia, desagregação semântica e apagamento da narratividade, memórias que se repetem e cronologia difusa. Todos marcadores também da doença que enfrentou no fim da vida. Assim como muitos críticos de arte estudam as últimas obras de Monet tentando separar a intenção do artista da realidade da doença, provavelmente também serão dissecadas as últimas obras de Lobo Antunes na tentativa de distinguir suas escolhas artísticas conscientes dos sintomas precoces da demência.
Por onde começar então?
Se você quiser só molhar o pezinho: Memória de Elefante ou Os cus de Judas
Pra quem gosta de História, especialmente das Grandes Navegações: As naus
Meus preferidos: Manual dos inquisidores e O esplendor de Portugal
Se puder comprar pela Amazon clicando por aqui, eu agradeço.
Próximas aulas e atividades só para mecenas
(Todo mês, minhas mecenas ganham uma conversa livre e duas aulas de História e Literatura. Para ser mecenas, basta fazer uma contribuição no meu Apoia-se.)
Quarta, 11mar: aula, Revolução Francesa e Guerras Napoleônicas, Grande Conversa Romance
Quarta, 25mar: aula, Guerra e paz, Grande Conversa Romance
Domingo, 12abr: Conversa livre, Grande sertão: veredas, Grande Conversa Romance
Quarta, 22abr: aula, Coronelismo e jaguncismo no Brasil, Grande Conversa Romance
Quarta, 29abr: aula, Artur, Grande Conversa Medieval








