A literatura contra o conformismo

A melhor literatura não-conformista vem da Ásia

Tudo o que eu sempre quis fazer em termos de ficção e nunca consegui está sendo realizado por duas brilhantes autoras asiáticas: Han Kang e Sayaka Murata.

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“Médico, cura o mundo”

Roberto Freire era médico psiquiatra. Uma vez, ao tratar um paciente homossexual, ele se deu conta de que nada adiantava curar os danos psíquicos que a sociedade homofóbica fizera àquela pessoa somente para depois soltá-la no mesmo mundo homofóbico que tinha lhe adoecido. De uma maneira bem real, a única maneira de curar a doença daquele único paciente era curar a doença de toda a sociedade. (Aqui um texto com os meus trechos favoritos da obra do Freire.)

Essa anedota me parece uma excelente chave de leitura para três romances asiáticos recentes, todos escritos por mulheres, todos de algum modo articulando questões individuais e coletivas de conformismo e normalidade: A vegetariana (2007), da sul-coreana Han Kang; e Querida Konbini (2016) e Terráqueos (2018), da japonesa Sayaka Murata.

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As prisões

Existem regras.

Todas sabemos que o ideal é que sejamos heterossexuais, monogâmicas, religiosas; que tenhamos casa própria, automóvel na garagem, emprego em tempo integral; que mulher deve usar cabelo longo e homem, curto; que pelo entre a boca e o nariz do homem se chama bigode e é bonito, na mulher, o mesmo pelo se chama buço e é feio; e etc etc literalmente infinitos.

Não sabemos quem foi o tirano ditador que inventou essas regras (que não deixam de ser concretas por não serem escritas) mas sabemos perfeitamente quem é a polícia secreta dessa ditadura, quem são os agentes repressores encarregados de implementar essas regras opressivas e aleatórias: somos nós mesmas.

Esse tirano ditador, por não ter existência concreta, não tem como fisicamente impor sua vontade sobre nós. Para exercer sua opressão, ele precisa nos converter, ao mesmo tempo, em vítimas e algozes, eternamente julgando e condenando umas às outras, sempre implementando suas regras, seus julgamentos, suas leis.

Nosso maior desafio de pessoas éticas e de cidadãs responsáveis é, em primeiro lugar, deixarmos de trabalhar para a polícia secreta desse ditador (ou seja, pararmos de oprimir as pessoas a nossa volta) e, em segundo lugar, escaparmos nós mesmas de seu controle opressivo.

(Meu livro Atenção. é sobre isso, em especial a décima prática de atenção, Exercer a não-opinião.)

Escrevo sobre esse tirânico ditador há vinte anos. Escolhi chamar suas diferentes manifestações de Prisões: são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem-sentido. Tudo que é quase unânime em nossa cultura provavelmente sempre foi ou se converteu em uma “prisão”: Dinheiro, Trabalho, Monogamia, Religião, Patriotismo, Obediência, Sucesso, Felicidade, Autossuficiência, etc.

Escrevi esses textos linkados acima, que são não-ficcionais, porque simplesmente não soube como escrever sobre isso em forma de ficção, que teria sido minha primeira escolha. Não achava nem que era possível.

Mas é.

Nos últimos meses, minha maravilhosa esposa me apresentou a alguns romances escritos por mulheres asiáticas que conseguem, finalmente, abordar as prisões na ficção.

(Em outro texto, já falei sobre obras falsamente anticonformistas.)

A vegetariana

A vegetariana (2007), da sul-coreana Han Kang, é um romance sobre o alto custo de qualquer decisão que vá contra o script da sociedade e, mais especificamente, como as mulheres pagam um custo impossivelmente alto até mesmo por seguir o script.

A protagonista é desde cedo descrita como uma mulher que recusa os padrões socialmente impostos de feminilidade, desde seus sapatos sem-graça até sua recusa de usar sutiã, passando pelo fato de trabalhar em quadrinhos e não ter filhos. Quando decide parar de comer cadáveres, porém, essa contravenção vai longe demais: seu pai lhe agride, seu marido lhe estupra e lhe abandona. Mais tarde, ao dessexualizar seu corpo e sua nudez, não é nem mais considerada capaz de viver em sociedade e é internada. Finalmente, desiste da vida, ou, pra ser mais específico, da vida animal, e decide tornar-se planta, outra escolha naturalmente inaceitável.

Sua irmã, enquanto isso, é a mulher ideal: corpo mais delineado, obediente aos pais, casada e com um filho e dona do próprio negócio – não por acaso, no mercado de “feminilidade” por definição: cosméticos.

Ao final do livro, a irmã desobediente está à beira da morte, estuprada, agredida, destruída. Já a irmã obediente também está em cacos: desiludida pela maternidade, traída pelo marido manipulador, abandonada pela família – e, de certo modo, até pela irmã.

Querida Konbini

Querida Konbini (2016), da japonesa Sayaka Murata, é sobre uma funcionária de loja de conveniência (no Japão, “konbini”) que se rebela contra as expectativas sociais de viver uma vida “normal” e decide, contra tudo e contra todos, viver da maneira que considera mais adequada. (Entre outras coisas, sem transar e sem namorar.)

Não será essa sinopse que vocês vão ler por aí, aliás. Para boa parte das pessoas leitoras, e para muitas escritoras de resenhas, o romance é sobre uma moça autista (ou neurodivergente) e sua luta com seus problemas mentais. Essa leitura, possível e válida, me parece complacente com a protagonista: ela deixa de ser uma heroína capaz de enfrentar tudo e todos para viver suas escolhas, e passa a ser uma pessoa com problemas mentais vivendo de forma esquisita e, bem, … divergente.

A própria autora certamente discordaria. Naturalmente, a autora não é a dona da história e nada impede uma leitora de ler um livro não só contra a protagonista (não fazemos isso com Dom Casmurro?) mas também contra a autora. Nesse caso, porém, acho interessante recuperar a maneira como Murata enxerga o romance que escreveu. Para ela, a protagonista de Querida Konbini é uma heroína:

“Keiko não se importa, talvez nem perceba, quando é zoada pelos outros. Ela não quis fazer fazer sexo nunca e tudo bem, e escolheu essa vida. Eu admiro seu caráter.”

No romance, todas as pessoas-personagens na vida de Keiko não apenas claramente a consideram louca, como deixam bem claro que sabem (melhor que ela própria) como ela deveria estar vivendo sua vida. A pessoa-leitora, claro, pode escolher ler o livro nessa mesma chave, mas como não percebe que está escolhendo se alinhar com todas as forças antagônicas que oprimem e tiranizam Keiko, que dificultam e quase impossibilitam que viva sua vida em seus próprios termos?

Será que também acham que sabem como Keiko deveria estar vivendo a própria vida?

Querida Konbini é um livro sobre normalidade e não-conformismo que coloca a própria pessoa leitora na berlinda. Como escolhemos ler o livro diz muito sobre quem somos: enxergamos em Keiko uma heroína potente em sua jornada para viver sua própria vida em seus próprios termos, ou uma pessoa fraca e perturbada, com dificuldades de lidar com o mundo, e precisando de urgente ajuda psiquiátrica?

A autora está claramente apontando um dedo, mas para quem? Para Keiko ou para o mundo?

A errada é Keiko, por querer viver de maneira tão anormal, ou errado é o mundo, por impor um conceito tão estreito e intolerante de normalidade?

Se Keiko é anormal, ok, vamos tratá-la, afastá-la, entupi-la de remédios. O problema é que fazer isso equivale a inocentar e naturalizar o mundo.

Mas e se o mundo for anormal? Ainda faz sentido falar em normalidade em um mundo anormal? Aliás, o que é ser normal? Você é normal? É desejável ser normal?

Estou há vinte anos tentando articular essas questões nos textos das prisões. Não seria exagero afirmar que são as questões mais importantes da minha vida. Querida Konbini articula todas de forma magistral e, por isso, já é um dos meus dez romances preferidos.

Terráqueos

O livro mais recente de Murata, Terráqueos (2018), acabou de sair no Brasil e parece dobrar a aposta de Querida Konbini:

“Ok, se não entenderam a Keiko de Querida Konbini, então, definitivamente ou vão entender Natsuki, Yuu e Tomoya de Terráqueos menos ainda, ou, quem sabe, finalmente entenderão.”

Terráqueos é narrado por Natsuki, que parece a Keiko de Querida Konbini, mas turbinada: Keiko estava deslocada no mundo anormal, mas pelo menos era amada por sua família, o que lhe dava chão, o que lhe dava forças. A Natsuki de Terráqueos não tem essas vantagens: além de ser desprezada pela família, ela sofre (ainda no começo do livro, em sua infância) uma horripilante sequência de estupros nas mãos do professor mais bonito e mais carismático do bairro.

O resto do romance é repleto de muitos horrores. A autora cutuca, de maneira sistemática e deliberada, os maiores tabus da humanidade, como se perguntando: “até onde um romance pode ir?”

(Ela mesma diz: "Quero usar a forma do romance para conduzir experimentos. Para testar coisas que não seriam possíveis no mundo real.")

Mas não deixa de ser digno de nota que, em um romance onde são afrontados os tabus mais horripilantes da humanidade, a autora escolhe apresentar de forma mais horrível justo aquele horror que é o mais comum, justo aquele horror que é praticamente normalizado: o professor que seduz a aluna. Depois disso, os horrores seguintes parecem quase anticlimáticos, perpetrados pelas próprias personagens com a sobriedade de fleumáticas cientistas.

Terráqueos radicaliza Querida Konbini de outras maneiras: agora, ao contrário da solitária Keiko, temos três não-conformistas agindo em conjunto: Natsuki, Tomoya, Yuu; o trio, longe da inconsciência de Keiko, tem total consciência de estar indo contra a “fábrica do mundo”; por fim, não satisfeitas em apenas tentarem viver suas vidas livremente, as três personagens efetivamente atacam o mundo anormal que lhes oprime – sofrem horrores, mas também cometem os seus próprios.

Keiko, de Querida Konbini, é completamente inofensiva e indefesa, nunca faz mal a ninguém. Diante da violência do mundo contra ela, nunca revida, nem mesmo considera contra-atacar. Ela não faz nada de objetivamente errado para causar a rejeição na leitora: não há desculpa possível para não apoiar Keiko, a não ser a completa rendição da leitora ao conformismo vigente.

Já o trio principal de Terráqueos afronta os mais delicados tabus e comete os mais diversos crimes, crimes que não são apenas questão de opinião mas que seriam considerados crimes até pelas pessoas mais generosas, tolerantes, antipunitivistas.

Em consequência, a pessoa leitora (especialmente se também leu Querida Konbini) é colocada em uma posição difícil, quase insustentável:

O que fazer com esse trio de Keikos levadas às últimas consequências? Depois de todos os horrores que os vimos sofrer, vamos cair na tentação de condená-los só porque revidaram de maneira também horrível? Será que o mundo é inocente de sua opressão conformista só porque suas vítimas, dessa vez, contra-atacaram? Mas podemos perdoar esses crimes?

As questões principais levantadas por Querida Konbini continuam como as questões centrais de Terráqueos, mas agora levadas à enésima potência, agora causando incômodo real mesmo à pessoa distraída que tiver passado mais incólume pela vida de Keiko.

O que é normalidade? Até que ponto temos direito de viver nossas próprias vidas em nossos próprios termos? Até que ponto o mundo tem direito de fazer com que nos conformemos aos padrões que nos impõe?

E se saíssemos da linha só um pouquinho, como Keiko? Será que o mundo deixava? Será que nossas amigas e familiares permitiriam? E se saíssemos muito da linha, como Natsuki, Yuu e Tomoya? Até onde iríamos? Seríamos capazes?

Sim, as personagens de Terráqueos cometem atos terríveis, radicais, extremados, mas até que ponto esses crimes podem ser colocados na conta pessoal delas, pessoas livres totalmente responsáveis por seus atos, e até que ponto esses crimes são reflexo, sintoma, manifestação da opressão conformista que o mundo exerce sobre todas nós?

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Recomendo os três livros enfaticamente. Se você clicar nos links aqui do texto, eu ganho comissão de qualquer coisa que comprar na Amazon BR pelas 24h seguintes: ou seja, você paga a mesma coisa, mas me ajuda a continuar aqui escrevendo. :)

Três agradecimentos

Obrigado, Kang e Murata, por me ensinarem como falar de conformismo e normalidade na ficção.

E, por fim, Seinfeld já dizia: uma das grandes vantagens da homossexualidade era que, se você saía com alguém mais ou menos do seu tamanho, dobrava de guarda-roupa em uma só tacada. Eu diria mais: se você casa com uma pessoa leitora, dobra de biblioteca; eu, por exemplo, ganhei várias estantes cheias de autoras contemporâneas impressionantes.

Então, obrigado mais ainda a minha maravilhosa esposa Marina, pois sem ela eu jamais teria nem lido esses romances, nem enxergado neles um terço do que ela me ajudou a ver.

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Beijos não-conformistas,

do Alex Castro