Como ler jornal
O jornalismo deve sempre ser cético. O problema é quando esse ceticismo é direcionado e seletivo.
Em tempos de informação cada vez mais barata, mais abundante e mais errada, saber ler jornal é uma habilidade importante que estamos perdendo.
A pessoa leitora acha que está se informando sobre o conflito em um veículo independente, mas o jornal, na prática, já está funcionando como órgão informativo de um dos combatentes.
No dia 11 de março, o perfil do G1 no Instagram publicou a seguinte notícia:
Compartilhei a postagem no meu instagram (aliás, você me segue lá?) fazendo algum rápido comentário sobre o absurdo do texto. Muita, muita gente não entendeu e veio me perguntar nas DMs. Claramente (excelente lição para um escritor como eu) o que era óbvio para mim não era óbvio para tantas outras pessoas. Então, explico.
Para começar, um disclaimer
Não estou comentando sobre os fatos em si.
Óbvio que a guerra é um horror. Óbvio que é horrível uma escola ser bombardeada em qualquer circunstância. Óbvio que o regime dos iatolás é opressor, autoritário, misógino, homofóbico — só uma pessoa louca poderia defender um regime como o iraniano. Óbvio que nenhum país tem direito de bombardear outro dessa maneira assim ilegal e criminosa — só uma pessoa louca poderia defender um regime como o estadunidense. Então, se você quer discutir a guerra, veio ao lugar errado.
Meu texto é sobre escrita. Sobre o modo sutil como a imprensa às vezes desqualifica os próprios fatos que está noticiando. Sobre como é possível atacar um lado e defender outro através de sutis escolhas de palavras, sem nunca precisar mentir ou faltar com a verdade dos fatos.
(Vou presumir aqui, para fins dessa discussão, que a imprensa reportou todos os fatos corretamente. Meio como um físico que presume que chutei a bola num vácuo!)
Em tempos de informação cada vez mais barata, mais abundante e mais errada, saber ler jornal é uma habilidade importante que estamos perdendo.
Como (não) noticiar uma guerra
Vamos, então, ler juntas o texto que acompanha a postagem do G1.
Foto de menino acenando para a mãe antes de morrer em ataque a escola no Irã viraliza
A manchete já diz tudo: o fato que está sendo noticiado não é a morte do menino ou o ataque à escola (tudo isso, aliás, o texto colocará sutilmente em dúvida), mas sim o fato de que essa foto viralizou. Essa é a notícia.
Mais importante é perceber o que está faltando. Sabemos quem morreu no ataque (o menino) e sabemos onde foi (uma escola no Irã), mas quem atacou? Quem foi o agente dessa horrenda ação? A manchete não informa. É um grande mistério.
Cenas da guerra - Uma foto de um menino que morreu durante um ataque a uma escola no Irã viralizou nas redes sociais nos últimos dias. A imagem mostra Mikaeil Mirdoraghi acenando para a mãe antes de ir para a aula. Segundo a imprensa iraniana, ele morreu no dia 28 de fevereiro, no primeiro dia da guerra.
A primeira frase afirma os fatos inequivocamente — e logo depois já começa a desmontá-los. As duas frases seguintes começam com expressões que servem apenas para distanciar o texto do que está sendo relatado: “a imagem mostra” (não sou eu que estou dizendo) e “segundo a imprensa iraniana” (ela é confiável? está falando a verdade? quem sabe?).
O ataque atingiu uma escola em Minab, no sul do Irã, e matou 175 pessoas. A maioria das vítimas era de crianças, segundo o jornal The New York Times. O governo do Irã atribui o bombardeio aos Estados Unidos e a Israel.
Aqui, a palavra “atribui” também serve para sutilmente descreditar os fatos.
Em entrevista ao jornal Hamshahri, controlado pela prefeitura de Teerã, a mãe do menino afirmou que o filho pediu para ser fotografado antes de sair de casa para ir à escola. O relato foi divulgado nesta terça-feira (10).
Tudo nesse parágrafo serve para desacreditar a história.
Primeiro, por que enfatizar que o jornal é “controlado pela prefeitura de Teerã”? Só pode ser para desacreditá-lo, dando a entender que é somente um porta-voz enviesado do governo iraniano. Dá pra acreditar nesse jornal? Ele não tem interesse em mentir?
Vejam, eu também confio mais no New York Times (sou assinante pagante!) do que no Hamshahri (que nem sabia que existia). Mas, justamente por conhecer o New York Times, eu sei que ele, apesar de ostensivamente uma empresa privada, frequentemente serve de aparelho ideológico de Estado.
Só para citar o último de muitos exemplos, já desse ano: o NYT sabia da operação militar para sequestrar o Presidente da Venezuela. Eles poderiam ter dado a notícia, ou ter avisado ao governo que dariam a notícia, o que forçaria as Forças Armadas a abortarem a operação. Oitenta vidas teriam sido salvas se o NYT tivesse se comportado de fato como um veículo independente e não como órgão informativo do governo estadunidense.
(Aliás, quem deu esse furo foi o Semafor, veículo criado por Ben Smith, criador do Buzzfeed e ex colunista de mídia do NYT. Ultimamente, tem sido um dos meus veículos de mídia preferidos. Recomendo.)
Então, sim, acho válido pontuar que o Hamshahri é controlado pela prefeitura de Teerã, mas por que não pontuar também que o New York Times esse ano mesmo protegeu operações de guerra das forças armadas estadunidenses?
(Por falar nisso, confiram o Jones Manuel dizendo, na própria Folha, que a Folha é um “aparelho ideológico da classe dominante”. Também escrevo pra Folha e admiro o jornal por veicular essa crítica.)
Além disso, o parágrafo também diz que a mãe do menino “afirmou” e que “o relato foi divulgado”. Nada errado aqui, mas são maneiras muito sinais de dizer:
“Ó, sei lá se é verdade, hein? Sim, o relato foi divulgado que ela afirmou, mas afirmou mesmo? O relato é verdadeiro? Você decide!”
Ela também contou como foram as últimas horas de vida do filho. “Na noite anterior, ele disse: ‘Mãe, a comida que você fez tem gosto de paraíso’”, afirmou. Segundo ela, o filho também brincou de guerra com o irmão antes de dormir. “À meia-noite, ele veio, colocou os travesseiros ao redor dele, sentou com o irmão e disse: ‘Vem, eu sou o Irã, irmão, você é os Estados Unidos.’”, relatou. Durante a brincadeira, ainda segundo a mãe, o menino comemorou: “O Irã venceu. Eu era o Irã e venci”.
Mais uma vez, todas as palavras grifadas sutilmente distanciam o texto dessas falas e desses fatos: “contou”, “afirmou”, “relatou” e “ainda segundo a mãe”. Vamos lembrar a manchete, que é o que fornece a chave de leitura para o texto inteiro: a notícia aqui é que isso viralizou, não que aconteceu.
O nome de Mikaeil aparece em listas de vítimas divulgadas pela mídia iraniana, que trata as crianças mortas como “mártires”. Autoridades do país classificam o episódio como crime de guerra.
Nas entrelinhas, o que o texto parece estar dizendo é:
“Reparem: não é que o menino morreu. Não estamos afirmando isso. Como poderíamos se só temos informações da mídia iraniana?! Estamos afirmando que o nome dele apareceu em listas. Mas essas listas são confiáveis? Olha lá, hein, esse tipo de gente que fala em ‘mártires’ não pode ser confiável. Que interesse essas autoridades têm em fazer tanto escarcéu todo por causa da morte (presumida!) de algumas crianças? Qual é o interesse deles de classificar isso de crime de guerra? Cuidado com essa gente!”
A foto do menino se despedindo da mãe passou a circular como símbolo do ataque, sendo compartilhada por perfis ligados ao governo iraniano e por usuários nas redes sociais.
Agora, no penúltimo parágrafo, voltamos à notícia em si: o fato inquestionável da foto ter viralizado. Mesmo assim, o texto se esforça para, no limite do possível, questionar: a foto virou “símbolo” e foi compartilhada por “perfis ligados ao governo”.
Dizer que virou símbolo já dá a entender que a história por trás da foto foi exagerada, ficcionalizada, cooptada, folclorizada. (Dá pra confiar num símbolo? Símbolo é fato? Símbolo é notícia?) A menção que foi compartilhada por perfis ligados ao governo só reforça a impressão.
O que então fica implícito, sugerido?
Não é que as pessoas locais ficaram realmente, sinceramente horrorizadas pela morte de crianças em uma escola bombardeada! Não! Foi tudo orquestrado pelo governo como propaganda de guerra, esse governo malvado que não consegue nem levar um simples míssil numa escola sem simbolizar o ocorrido e compartilhar nas redes sociais!
O g1 submeteu a imagem a ferramentas de detecção de uso de inteligência artificial, que indicaram alta probabilidade de a foto ser autêntica.
Por fim, o golpe de misericórdia:
“Olha, não estamos nem afirmando que é verdade, hein, olha lá, não iríamos tão longe ao ponto de confirmar o que foi noticiado pelo jornal da prefeitura de Teerã!, Deus nos livre, mas nosso robozinho aqui avaliou que essa foto, que pode ou não ser verdadeira, tem “alta probabilidade” de “ser autêntica” — o que significa também, por óbvio, que existe uma possibilidade de ser falsa. Então, olho vivo, hein?”
Ou seja, até a última linha o texto está se esforçando ao máximo para não se comprometer.
(Eu nunca usei inteligência artificial intencionalmente para nada. Nenhum texto meu foi elaborado utilizando ferramentas de inteligência artificial. Minha política sobre inteligência artificial está aqui.)

Muita gente leu o texto do G1 rapidamente e sinceramente não entendeu qual era o problema. Quando expliquei a uma das pessoas que me procurou, ela respondeu:
Quer dizer então que vc acha que o G1 desumanizou o menino?
Acho pior. O texto do G1 levanta dúvidas sobre tudo:
Existiu o menino? Escola foi bombardeada? Foi mesmo morto?
Não sabemos. Nem nossa inteligência artificial sabe.
Fica a impressão de que se a foto não tivesse viralizado — que foi afinal a justificativa da matéria — nada teria nem sido veiculado.
Por fim, o punchline: nem precisava ter usado tantos condicionais.
Cinco dias antes da publicação do G1, o NYT, esse aparelho ideológico de estado, já tinha concluído que o ataque (que, por óbvio, aconteceu) era de responsabilidade estadunidense.
Um ceticismo direcionado e seletivo
O problema não é o G1 veicular a notícia de maneira tão cética e questionadora. O problema é o G1 não veicular todas as notícias de maneira tão cética e questionadora.
Eu, pessoalmente, não confio nas informações dadas por um governo opressor, autoritário, misógino, homofóbico, etc, como o iraniano. Mas, ainda mais importante, eu não acredito em nada que diz nenhum governo em guerra. Afinal, como disse Bismarck, que entendia de guerras:
“Nunca se mente tanto como antes da eleição, durante uma guerra, ou depois de uma caçada.”
No nosso meio-ambiente digital de informação excessiva, os veículos tentam correr para dar as notícias sempre primeiro e, nesse processo, mesmo os mais bem-intencionados cometem “jornalismo declaratório”, ou seja, noticiar somente o que disseram as autoridades, sem dar o contexto, nem o contra-discurso.
Então, uma coisa que sempre devemos prestar atenção ao ler a imprensa é: de quem esse veículo duvida? Em quem ele confia?
Esse ceticismo direcionado e seletivo revela a tomada de posição da mídia: a pessoa leitora acha que está se informando sobre o conflito em um veículo independente, mas o jornal, na prática, já está funcionando como órgão informativo de um dos combatentes.
O problema não é o jornal desconfiar da imprensa iraniana. O problema é ele confiar na imprensa estadunidense.
O problema é transcrever as declarações terríveis de líderes enlouquecidos como Trump ou Bolsonaro sem o contexto necessário de que são mentiras ou exageros.
O problema não é o jornal noticiar que empresários que estão preocupados que o fim da escala 6X1 vai diminuir seus lucros ou que políticos de direita acham que “ócio demais faz mal”. Ok, cada um puxa a sardinha pro seu lado.
O problema é o jornal não noticiar o contraponto: que os sindicatos estão felizes de os trabalhadores poderem passar mais tempo com suas famílias e que o próprio IPEA diz que será positivo para a economia.
Se o jornal só noticia o primeiro, mas não o segundo, então, na prática, ele já abdicou do seu papel de jornal e se transformou em assessoria de imprensa do patronato.
“Meu conselho aos iranianos e a todos os outros: não construam escolas de meninas ao lado de bases navais.” John Bolton, ex Conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump.
“Existem mais de 160 escolas públicas em bases militares nos Estados Unidos. Será que John Bolton, esse belicoso criminoso de guerra, acha que todas essas escolas são alvos militares legítimos?” Mehdi Hassan, jornalista
Liberdade de expressão, uma defesa a partir da esquerda
Se o assunto “imprensa” te interessa, te convido a ler meu texto Liberdade de expressão, uma defesa a partir da esquerda, que hoje faz parte da Prisão Liberdade.
Próximas aulas e atividades só para mecenas
(Todo mês, minhas mecenas ganham uma conversa livre e duas aulas de História e Literatura. Para ser mecenas, basta fazer uma contribuição no meu Apoia-se.)
Quarta, 18mar: aula, Revolução Francesa e Guerras Napoleônicas, Grande Conversa Romance
Quarta, 1ºabr: aula, Guerra e paz, Grande Conversa Romance
Domingo, 12abr: Conversa livre, Grande sertão: veredas, Grande Conversa Romance
Quarta, 22abr: aula, Coronelismo e jaguncismo no Brasil, Grande Conversa Romance
Quarta, 29abr: aula, Artur, Grande Conversa Medieval











Uma aula mesmo, não só sobre ler jornal!
Muito bom esse texto, Alex. Vou usar numa aula!