A paz de Cassandra
Um conto greco-budista. Em agosto, tem aula "A Odisseia, de Homero: o poema e o filme".
A troiana Cassandra pediu ao deus Apolo o dom da profecia. Em troca, lhe prometeu sexo. Apolo cumpriu sua parte; Cassandra, não. Por isso, foi amaldiçoada pelo deus: suas profecias estariam sempre corretas, mas ninguém acreditaria nelas.
Cassandra passa os dez anos da Guerra de Troia mergulhada no mais profundo desespero. Antes da guerra, profetiza que Páris será a destruição da cidade. Ao final, que o cavalo de madeira está cheio de gregos. Ninguém escuta. Ninguém acredita. Nunca. (Na iconografia da guerra, ela é sempre representada arrancando os cabelos.)
(Já que a Grécia Antiga voltou à moda, aqui vai um conto inédito sobre a profetisa troiana Cassandra. Também aproveitando a empolgação sobre o filme de Christopher Nolan, a aula avulsa de agosto será “A Odisseia, de Homero: o poema e o filme” e acontece na quarta, 26, 19h. Recomendo ler em uma dessas duas edições. // As aulas e os cursos são só para mecenas, mas é super fácil se tornar mecenas: basta fazer uma contribuição ao meu Apoia-se. As mecenas têm acesso a todos os meus cursos, passados, presentes e futuros, enquanto durar o mecenato. // Todos os links desse texto levam à Amazon Brasil e, se você comprar qualquer coisa por lá depois de clicar, eu ganho uma comissão, você apoia meu trabalho e fico muito, muito grato. Sim, mesmo se não for o item que clicou inicialmente. Pra facilitar, esse aqui é o link direto para as ofertas do dia em livros.)
A paz de Cassandra
Depois da catástrofe final, Cassandra torna-se parte do butim de Agamemnon, Rei de Argos, líder máximo das forças gregas. Ela sabe que o destino de Agamemnon é ser assassinado pela esposa Clitemnestra no dia de sua volta para casa. Cassandra também sabe que seu próprio destino é morrer esfaqueada na sequência.
Ao seu lado, o filho recém-nascido de Heitor acabava de ser atirado do alto das muralhas da cidade. Tantas mortes, tantas violências, tantas traições, tudo prestes a acontecer, tudo sempre acontecendo. Será que a tormenta não tem fim?
Buscando algum consolo, Cassandra desvia seu olhar profético para aquelas pessoas que ela sabe que vão sobreviver.
Como Enéias, seu amigo e amante, o herói que foi incumbido de escapar de Tróia e salvar os deuses da cidade. Cassandra enxerga que ele fundará Lavinium, embrião da futura Roma, mas não consegue evitar de também ver sua futura morte, em batalha contra os rútulos: sente a dor da espada que lhe penetra o ventre, sente o desespero de tentar segurar as próprias entranhas que lhe escapam, sente a imensa solidão de morrer entre inimigos e enxerga até mesmo como os rútulos lhe destroçam o corpo até que não reste nada do último troiano.
Não era essa visão que Cassandra buscava.
Desvia seu olhar profético para Odisseu, Rei de Ítaca, seu maior algoz, autor do estratagema do cavalo de madeira. Cassandra sabe que Odisseu, pelo menos ele, sobreviverá. Enxerga seu retorno a Ítaca e sua felicidade conjugal com a esposa Penélope e o filho Telêmaco, mas não consegue evitar de também ver sua futura morte, em batalha contra Telégono, seu filho com Circe, sente a dor do peito perfurado por um ferrão de arraia convertido em arma de guerra, sente o desespero da serra sendo arrancada e rasgando sua carne, sente a confusão de ouvir o filho finalmente reconhecendo-o, sente a imensa vergonha de terminar uma vida tão heroica por um estúpido mal-entendido.
Nem tudo pode ser guerra, mutilação, violência, pensa Cassandra.
Cada vez mais desesperada, desvia seu olhar profético para Nestor, Rei de Pilos, o mais velho e sábio entre os guerreiros da Grécia. Cassandra sabe que Nestor também sobreviverá: seguramente, não existem mais guerras em seu futuro. Ela enxerga a volta triunfal de Nestor para Pilos, mas não consegue evitar de também ver sua futura morte, muitas décadas depois, em idade extremamente avançada, sente a ansiedade de querer coçar um pé amputado que já não existe mais, sente as dores atrozes nas articulações e nas costas, nos dentes e nos rins, sente a humilhação de perder o controle dos intestinos, sente o desespero de não conseguir acabar com a própria vida, sente a imensa solidão de ter sobrevivido a todos os seus contemporâneos, sente o alívio agridoce da morte tão ansiada finalmente chegando.
Cada vez mais atormentada, Cassandra expande seu olhar profético e considera todas as pessoas à sua volta. Aquele homem, em cinco anos, tropeçará na própria sandália, morderá a língua e morrerá sentindo-se humilhado por seu azar e estupidez. Aquela mulher, em doze anos, morrerá ao final de cinquenta horas de um trabalho de parto lancinantemente doloroso e vão. Aquele bebê recém-nascido, em trinta e três anos, voltando ileso de uma longa guerra, naufragará já à vista de sua casa tão saudosa e morrerá preso em uma das cabines, afogado como um rato.
Apoplexia ou facada, hoje ou ano que vem, ninguém sobrevive. Em menos de cinquenta anos, todas as pessoas à sua volta estarão – estaremos – mortas. Quase todas morrerão – morreremos – mortes tristes, solitárias, dolorosas, indignas.
Então, finalmente, aqui diante do Palácio de Argos, Cassandra sente uma profunda tranquilidade, a mais intensa placidez, uma avassaladora paz.
Descendo de sua carruagem depois de longa e vitoriosa expedição, Agamemnon, Rei de Argos e seu novo senhor, lhe chama para entrar em sua futura morada. No alto das escadarias, na entrada do palácio, Clitemnestra abre os braços para receber o marido retornado e a profetisa troiana.
Cassandra sorri ao enxergar, pela primeira vez, a bela mulher que em poucos minutos lhe arrancará a vida. Acaricia a areia do chão com seus dedos dos pés. Sente o sol forte lhe esquentando os cabelos. Aprecia o aroma dos hibiscos em flor.
Ao pé das escadas, uma escrava oferece uma bandeja de figos recém-colhidos ao rei. Cassandra escolhe o mais bonito e, enquanto sobe os degraus atrás de Agamenon, morde sua parte mais carnuda e suculenta.
Está uma delícia.
Recomendações de leitura
Esse conto é minha tentativa de unir duas paixões que parecem distantes mas estão mais próximas do que imaginamos: Grécia Antiga e Budismo.
O pirronismo foi uma filosofia cética da Grécia Antiga que rejeitava dogmas e defendia a suspensão de julgamentos sobre a verdade última das coisas. Ela influenciou o ceticismo e, a partir dele, o empirismo e, assim, foi fundamental para a criação do método científico que possibilitou o progresso material do Ocidente. Seu principal pensador foi Sexto Empírico. Segundo a tradição, o fundador da escola teria sido um tal Pirro de Èlis, que viveu entre os séculos IV e III aEC.
Para qualquer um que pratica o Darma, as semelhanças filosóficas entre o pirronismo e os ensinamentos do Buda é escandalosa. Poderia ter sido apenas uma coincidência se Pirro não tivesse vivido na época de Alexandre, o Grande, que levou seus exércitos até a Índia.
Hoje, muitos estudiosos já concordam que os aspectos mais inexplicáveis e revolucionários do ceticismo grego (“De onde eles tiraram essas ideias?!, se perguntavam os experts, “não existe nada parecido no Ocidente!”) provavelmente são lições de budismo trazidas pelos soldados helênicos.
Para quem quiser saber mais, recomendo os dois livros abaixo sobre a conexão grecobudista: Pyrrhonism: How the Ancient Greeks Reinvented Buddhism & Greek Buddha: Pyrrho’s Encounter with Early Buddhism in Central Asia. Minha introdução preferida ao budismo (existem muitas!) é essa pequena joia. Também recomendo o meu Atenção. Sobre ceticismo, pirronismo e Sexto Empírico, existem algumas coisas em português: Os céticos gregos e esses três livros. (Eu tenho essa coletânea excelente em inglês.) Por fim, para quem quiser saber mais sobre Cassandra, recomendo essa excelente releitura ficcional contemporânea e, claro, sempre, um bom dicionário de mitologia grega — esse é o meu preferido, que resolve minha vida, em inglês e esse é o melhor em português.
Oferta do dia: Comissário Maigret, de Simenon
A editora da Unesp está reeditando todas as aventuras do Comissário Maigret, personagem de Georges Simenon, em ordem cronológica, em volumes de quatro romances cada. Estou comprando todos. O terceiro volume acabou de sair.
Só hoje, a Amazon está vendendo os dois primeiros volumes com 40% de desconto. Eu aproveitaria. Vale a pena demais. É das melhores séries policiais de todos os tempos e sai muito mais em conta comprar quatro romances de uma vez.
Próximas atividades para mecenas
Todo mês, dou aulas e promovo conversas livres sobre literatura e história para minhas pessoas mecenas. Aqui vão as próximas. Seja mecenas, é a melhor forma de me apoiar. Além disso, minhas mecenas têm acesso a todas as aulas dos meus cursos passados.
Domingo, 2ago: Conversa livre, Tetralogia napolitana, Grande Conversa Romance
Quarta, 5ago: aula, Cem anos de solidão, Grande Conversa Romance
Quarta, 26ago: aula, Odisséia, de Homero: o poema e o filme
Domingo, 13set: Conversa livre, Tetralogia napolitana, Grande Conversa Romance
Quarta, 30set: aula, América, Grande Conversa Medieval
Domingo, 11out: Conversa livre, Tetralogia napolitana, Grande Conversa Romance
Quarta, 28out: aula, Tetralogia napolitana, Grande Conversa Romance
Quarta, 25nov: aula, Renascimento, Grande Conversa Medieval



















